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A descodificação cultural da frase: "a vida não anda para trás"

Sábado, 25.11.17

 

  

O Grande Equívoco procurei descodificar a cultura política do actual governo. Não está lá tudo, como por exemplo, a mesma preocupação pueril de brilhar, de se apresentar como um sucesso, a marca do PS já desde o governo socrático.

É que a preparação laboriosa de um projecto ou de uma iniciativa, o da prevenção e segurança, todo esse trabalho que não se vê porque é suposto não se ver, precisamente porque é discreto, isso já não interessa.

Fui, no entanto, um pouco injusta com os partidos que o apoiam na AR. São territoriais, é um facto, têm um eleitorado mais urbano e sindicalizado, é um facto, mas deve-se à sua participação a possibilidade das pessoas e das famílias verem a devolução do que lhes foi retirado.

 

Reparem na resistência do PS a contar os anos de serviço anteriores ao governo-troika. Queriam limpar os anos do governo socrático. Reparem nas frases reveladoras da sua cultura política que não mudou com os acordos de esquerda: A vida não anda para trás... Pôs-se o cronómetro a andar... Não podemos voltar aos adquiridos... 

Pacheco Pereira descodifica esta cultura política na Quadratura do Círculo, como uma mentalização que nos tem sido transmitida desde o governo socrático, e depois no "vivemos acima das nossas possibilidades". Uma certa elite que quer manter o status quo. O que nos coloca numa certa ausência de perspectivas de futuro.

Há uma continuidade na mensagem que atravessa vários governos, porque o empobrecimento geral inicia-se no governo socrático. Por coincidência, Pacheco Pereira já o tinha percebido há 10 anos: "estão a empobrecer-nos".

 

A cultura é a mesma. Como disse Jerónimo: "Se o governo fosse de uma maioria PS e governasse sozinho não haveria estas devoluções." Concordo.

Deve-se, pois, ao BE e ao PCP as tais "preocupações sociais" de que o PS se quer vangloriar. Estivesse o PS a governar sozinho e teríamos de esperar pelo próximo governo. Centeno viria apresentar a contabilidade nas sessões parlamentares enquanto prepara a sua imagem de ministro virtuoso para o Eurogrupo.

Durante o governo anterior, o actual PM dizia que era preciso fazer finca-pé à Europa, não aceitar tudo, mas isso ficou na gaveta.

As cativações do ministro ilusionista não eram para fazer face a nenhum imprevisto que estivesse relacionado com uma emergência humana. Se fossem, as vítimas dos incêndios teriam sido de imediato apoiadas financeiramente, pois há muitas formas de obter esses valores posteriormente, das seguradoras e de outros mecanismos. O que vimos acontecer foi a ajuda mútua das populações, a nossa cultura comunitária.

 

A resistência a um equilíbrio social, querendo baixar o nível das expectativas legítimas porque no privado se ganha ainda pior, revela que a cultura das elites políticas não mudou nada. Em vez de se questionarem sobre a possibilidade de tornar o país economicamente viável para os seus habitantes, não, apenas se preocupam se o país é financeiramente viável para o Eurogrupo, a UE, o BCE, o FMI e as agências de rating.

E a maior parte do nosso patronato, os associados da CIP, em vez de se irem queixar a Bruxelas do OE2018 em relação à subida do salário mínimo, também se deviam questionar se uma empresa que não pode pagar o SM de 600 Euros é uma empresa viável. Na perspectiva de uma economia equilibrada e sustentável, não é. E nesse caso, deveriam sim ir queixar-se do preço insustentável da energia.

 

Exercício útil para as elites políticas, financeiras, administrativas, empresariais, e comentadores televisivos:

 

No dia 1 de Janeiro levantam da continha bancária a quantia de 600 - 66 (Seg. Social) = 534 Euros. Claro que as despesas debitadas pelo banco mensalmente, a vossa almofadinha, estão asseguradas, o que não acontece com a maior parte dos mortais a viver do SM. Os jovens mantêm-se na casa dos pais, por exemplo.

No dia 31 de Janeiro elaborem um pequeno relatório sobre a referida experiência, avaliando a baixa de expectativas numa escala de 1 a 10.

Finalmente, partilhem as vossas ideias, numa pequena exposição intitulada: como sobreviver com 534 Euros por mês quando não se tem uma almofadinha.

 

Este exercício já vos coloca algumas questões importantes sobre o equilíbrio social numa sociedade democrática.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:32

A tentar acompanhar tantos erros políticos...

Domingo, 05.11.17

 

 

É tão difícil acompanhar tantos erros políticos no país e na Europa, que nem dá para acompanhar o que se está a passar na América. Parece que as coisas também estão a fervilhar de erros por lá. Já para não falar nos riscos que todos corremos, entregues à loucura das lideranças mundiais...

 

É também com o coração nas mãos que olho para a nossa vizinha Espanha. Aí os erros políticos acumulam-se diariamente. Depois da violência policial da Guardia Civil sobre manifestantes em Barcelona, a prisão de membros do governo catalão.

E ainda pretendem levar por diante as eleições na região. A campanha eleitoral já deve ter começado, porque vi e ouvi um discurso muito estranho de Albert Rivera na TVE sobre "liberdade", imagine-se! O jovem político não percebe nada de democracia nem de psicologia social. Falar de liberdade com membros do governo presos? Iniciar uma campanha política para eleições sem as mínimas condições democráticas para o efeito? Não esperava esta alienação cultural num jovem político.

Os catalães têm de preencher este vazio na sua representação política, com políticos que não tenham equívocos ideológicos na cabeça nem sejam formatados pela lógica do poder. A lógica do poder não tem a mais elementar empatia e solidariedade humana, neste caso com os presos e com a sua comunidade ansiosa e dividida. Políticos que em vez de virem provocar esta comunidade em stress e insegurança, consigam ajudá-la a lidar com as divergências internas, trocar ideias, escolher objectivos e definir prioridades. 

 

Os catalães merecem melhores lideranças políticas. E para isso precisam de tempo e de um ambiente favorável, restaurando a democracia e a autonomia. Não vejo outro caminho.

Madrid restaurava a sua imagem internacional, mas também doméstica. Arrepiar caminho só pode ser feito pelo que detém o poder. Não perdia nada, antes pelo contrário, evitava uma instabilidade social que se reflecte na economia, e este é o argumento a que o poder é mais sensível, o financeiro.

E não esquecer a monarquia, que em vez de unir, dividiu mais profundamente, aliando-se à lógica do poder do governo de Rajoy. Até quando pensa a monarquia conseguir manter-se se não servir a unidade de Espanha? Unidade que tem de garantir respeito pelas diversas comunidades e incluir todos os cidadãos.

 

Entretanto a UE aliou-se à lógica justiceira espanhola, sancionando a prisão de membros de um governo eleito democraticamente numa região autónoma. A UE que nos vem interpelar nas redes sociais que é democrática, que quer ouvir os cidadãos europeus, etc. e tal.

Ficamos todos a saber que a UE não é regenerável por dentro, que as suas instituições são obsoletas e opacas, que não servem a democracia ou a justiça.

Justiça é a possibilidade de resolver conflitos sociais, não é agravá-los.

Justiça é a possibilidade civilizada de manter o equilíbrio social, não é desequilibrá-lo.

E a democracia é a forma de organização social o mais equilibrada possível.

 

Esta loucura visível em muitas lideranças políticas tem de fazer "pause" antes de fazer mais estragos, dar tempo e espaço para reflectir, para restaurar o equilíbrio perdido.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:19

Porque é que as elites não gostam de referendos? Porque podem acordar com um Brexit

Segunda-feira, 27.06.16

 

 

E o Brexit continua a ser dramatizado nos canais informativos. Os media fazem o seu papel, uma agência de rating faz o seu papel, a CE faz o seu papel. As elites não gostam de referendos.

Jovens universitários urbanos e de classes privilegiadas estão revoltados com os que votaram Brexit, indiferentes ao seu futuro promissor na UE. Há até uma Petição a correr para comprometer a legitimidade democrática do resultado do referendo. 

As elites do futuro não conseguem pensar para além do seu egoismo. Na realidade, os jovens que poderiam argumentar a falta de solidariedade geracional são os jovens de escolaridade média que não conseguem entrar no mercado de trabalho.

 

Para compreender o resultado que assustou as elites, vamos analisar o perfil dos seus votantes. Apoio-me no Guardian: menor rendimento médio anual; classes sociais mais desfavorecidas; nível escolar mais baixo.

A faixa etária foi muito empolada, jovens vs reformados. No voto dos jovens verifica-se uma diferença entre os licenciados urbanos e os outros. O argumento da comparação da esperança de vida soou-me preocupante quando verbalizado por jovens que não querem perder as suas vantagens, esquecendo outros jovens que são mantidos à margem do mercado de trabalho, entenda-se, trabalho digno desse nome. 

 

Que elites se estão a formar na cultura europeia que não conseguem alargar a sua perspectiva a todos os seus conterrâneos? Já para não falar de todos os cidadãos europeus?

A cultura da UE não me parece, pois, uma cultura de futuro e com futuro. Pelo menos para os cidadãos europeus que têm sido esquecidos e maltratados. A cultura da colaboração inicial perdeu-se no caminho e o papel construtivo das elites também. 

 

Aqui analisei o Brexit na perspectiva cultural, de mudança profunda, de uma tendência de reequilíbrio local-global, indivíduos-instituições. A nível político e económico.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:16

O dossier Panamá

Segunda-feira, 04.04.16

 

Ora aqui está um belíssimo título para um livro ou um filme. Um trabalho de partilha de informação de jornalistas de investigação. Uma de muitas tentativas de divulgação do que se passa nos bastidores das finanças e das negociatas de quem não se quer sujeitar às regras da convivência justa, equilibrada e civilizada do comum dos mortais.


E quem encontramos lá? Algumas personagens não nos surpreendem, já contávamos com isso. Mas o primeiro-ministro da Islândia? De um país que acabou de atravessar uma das crises financeiras mais terríveis? E eu que pensava que as mulheres islandesas tinham tomado conta do poder para não deixar que cenas destas voltassem a acontecer...


O Messi? Admirado por tantos jovens de todo o mundo? Um símbolo do desporto? E logo quando o futebol ainda tem a mancha da corrupção agarrada à FIFA como pastilha elástica?


O mais interessante é constatar, quando se fala de offshores, que a cultura vigente ainda é aceitar a sua existência com naturalidade, como se fosse normal fugir ao fisco só porque se tem muito dinheiro. Tudo ao contrário, não acham? Mais aceitável seria perdoar uma pequena fuga ao fisco de quem tem pouco dinheiro... Só que para esses é a penhora.


Isto dos offshores já é uma grande rede de interesses, todos a retirar a sua parcela, bancos, empresas, advogados... A cultura vigente está tão enraizada que até gestores políticos propõem o perdão fiscal parcial e ainda se sentem gratos por esses montantes regressarem à legalidade.


E haverá ainda o argumento de que a finança poderá colapsar se se sujeitar às regras democráticas do equilíbrio de uma sociedade civilizada. De onde se poderá concluir que esta finança actual se baseia no desequilíbrio, na ausência de regras democráticas, e só funciona fora da lei.


E há outra questão muito actual que aqui surge como prioritária: a segurança. Os offshores são um óptimo esconderijo para financiar o terrorismo. 


A mudança necessária é cultural, mas tem de se começar por um lado, pelo trabalho jornalístico. 

 

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:19

A democracia e a cultura da negociação

Quinta-feira, 15.10.15

A democracia implica sempre a cultura da negociação. Mesmo no caso de um partido político ou de uma coligação obter uma maioria no parlamento. Por cá só vemos essa cultura em maiorias relativas, isto é, quando a negociação é vital para o governo sobreviver.

 

O que é que aconteceu recentemente? A dupla PSD/CDS, com uma maioria relativa, proclama que ganhou as eleições, que espera ser governo, que nunca se viu um líder de um partido menos votado andar a negociar para formar governo, que esse partido não apresentou propostas para negociar, etc.

 

Rewind:  o líder do PSD, que pensa que já é PM, foi responsabilizado pelo Presidente de iniciar contactos de forma a formar um governo com uma maioria estável no parlamento. Em vez de tomar a iniciativa de iniciar as negociações com o PS, assinou um "acordo de governo" com o seu parceiro de coligação, o CDS. 

Entretanto, o líder do PS, sabendo que o resultado das eleições o tinha colocado como fiel da balança, pôs-se a trabalhar: iniciou os contactos com os partidos à sua esquerda (que já o tinham desafiado durante a campanha eleitoral e logo após o resultado das eleições), e à sua direita.

Apesar dos apelos vários (incluindo a Igreja) e de pressões diárias (incluindo as internas ao PS), as negociações continuam. Pela primeira vez vemos os políticos envolvidos e interessados num acordo, a efectuar um trabalho sobre medidas concretas, em vez do palavreado e da politiquice. E isso é uma lufada de ar fresco.

 

Quem é que anda nervoso?

Quem pensava que estas eleições eram uma corrida presidencial. E quem pensava que o PS estava mais próximo do PSD (o sonho do bloco central) do que da esquerda.

A nova distribuição dos deputados na AR veio alterar a vida mansa da dupla PSD/CDS que governou na opacidade, sem dar a informação que lhe era pedida (e mantém o tique). 

Quanto ao bloco central, pois bem, é melhor fazer rewind de novo:

 

No governo de maioria absoluta do PS (2005-2009) notou-se, de facto, uma inclinação para a direita (outros bons alunos de Bruxelas). A sua única atenuante foi a aposta na ciência e na tecnol0gia, era, digamos, prá frentex. 

Mas a dupla PSD/CDS não se inclinou apenas para a direita, tornou-se a cara chapada da direita neoliberal (tipo Margaret Thatcher). Não se limitou a negligenciar os pobres, os remediados, os reformados, os desempregados, isto é, os mais frágeis e os que vivem so seu trabalho. Foi mais longe: massacrou-os e humilhou-os, disse-lhes para não serem piegas e contou-lhes uma parábola medicinal. E a parábola rezava assim: o país está doente, a austeridade é o remédio. E continua: os senhores que nos vêm visitar são os nossos benfeitores (solidariedade europeia), vamos ter de seguir as suas exigências para acalmar os mercados, que estão muito nervosos, ganhar a sua confiança, para podermos voltar a pedir-lhes dinheiro emprestado. E entretanto os pobres, os remediados, os reformados, os desempregados, os mais frágeis e os que vivem do seu trabalho, assistiram, incrédulos, à grande evasão fiscal, à protecção dos grandes grupos económicos, à falência de um grande banco, às vendas sucessivas dos nossos recursos, e, finalmente, repararam que o país estava completamente diferente, socialmente desigual, com muita pobreza, e com menos jovens, pois tiveram de emigrar.

 

A dupla PSD/CDS não sabe negociar, não está no seu ADN, na sua cultura de base. A sua é a cultura do poder: ganha-perde, uns ganham e os outros perdem, uns são ganhadores outros perdedores. A sua postura é a da arrogância, não é a do respeito. E a sua posição não e a da aproximação, é a de encostar às cordas.

 

A dupla PSD/CDS tem ainda muito que aprender sobre a cultura da negociação. A negociação implica:

- maturidade do(s) negociador(es);

- respeito mútuo entre negociadores;

- uma posição de ganha-ganha e não de ganha-perde;

- um caminho com várias etapas de aproximação;

- calma, paciência, discrição, enquanto as negociações se desenrolam;

- ter sempre presente que o objectivo de um acordo é o bem comum da comunidade.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:24

Mecanismos da Democracia ao dispor dos cidadãos entregues à prepotência e à arbitrariedade do governo

Domingo, 16.06.13

 

São muito poucos os mecanismos democráticos ao dispor dos cidadãos entregues à prepotência e arbitrariedade do governo:

 

- as manifestações organizadas (as de um grupo específico e/ou as mobilizadas pelos sindicatos) e as manifestações inorgânicas (os grupos mais diversos, em idade, profissão, situação, famílias, etc., isto é, quando a sociedade civil sai à rua). As primeiras são as que mais irritam os políticos, as segundas são as que mais preocupam os políticos (a paz e a coesão social, o impacto nas eleições, etc.). O exemplo de uma manifestação com impacto: a de 15 de Setembro do ano passado;

 

- as Petições cujo resultado nacional ainda não consegui avaliar. Penso que depende do número de assinaturas e/ou da influênca das assinaturas e eu acrescentaria a internacionalização da dita (parece que o governo é muito sensível à imagem que o estrangeiro faz de nós). As Petições não têm sido muito utilizadas no país, embora se verifique uma tendência crescente no seu recurso a nível da internet com algum impacto global;

 

- as reuniões de concertação social: aqui estruturadas pelos representantes dos diversos grupos sectoriais e governo. Mas o que vemos? O governo não respeita os acordos, muda as regras do jogo, desvirtua os compromissos, inventa medidas que diz temporárias e que depois quer tornar permanentes, recorre a manobras para cortar de outra forma o que não pode cortar de uma determinada forma, e tudo de surpresa, em conferências de imprensa. A rapidez com que muda de discurso e com que arranja a argumentação para mais um corte aqui e ali apanha todos de surpresa e já ninguém se entende, indo os representantes dos diversos grupos desabafar para a televisão; 

 

- as greves sectoriais e as greves gerais, que são estruturadas pelos sindicatos de grupos específicos (mesmo que a decisão possa surgir independemente da organização sindical). Já aqui defendi que a greve é um instrumento da cultura corporativa: só os grupos de activos podem utilizar esse mecanismo. Geralmente o impacto acaba por incomodar os conterrâneos mais vulneráveis, quantos deles nem sequer têm acesso a esse recurso (inactivos e reformados, por exemplo). Esta minha reserva aplica-se sobretudo a greves sectoriais e não tanto a greves gerais, que já revelam mais do que simples defesa de interesses de um grupo específico. Mas referir que essa minha análise se situou numa época em que a democracia, embora débil, ainda funcionava ou, pelo menos, parecia funcionar. Também nessa altura o trabalho e a sua dignidade não estava ameaçado, como hoje, e todos os dias. 

Hoje o trabalho está na mira da destruição sistemática e maciça do governo-troika: este ano a média diária foi de 1.100 postos de trabalho. A situação é desesperada da parte dos que se sentem na posição do próximo a ser movido para a estatística. Mas a principal razão desse desespero está na forma como essa ameaça foi sendo conduzida: de forma prepotente e arbitrária e nos sectores, isso sim, que mais prejudicam os cidadãos mais vulneráveis. Prepotente: reparem no sistema de despedimento, é colocar uma pessoa numa lista a que chamam de requalificação. Arbitrária: qual reforma da administração pública qual quê. O FMI dá um nº e um prazo, o governo transmite a ordem aos serviços: até 31 de Julho apresentem a lista. Esta forma de cortar sem critério compromete a qualidade e eficiência da prestação de serviços públicos que era precisamente o objectivo principal.

Neste contexto completamente anormal, porque não encaixa numa lógica, numa racionalidade, numa coordenação, na tal reforma administrativa, não há espaço para o normal funcionamento dos mecanismos anteriores. Ao não respeitar acordos, compromissos (a não ser com os credores e com os interesses protegidos, as excepções), ao não respeitar as regras do jogo, as leis do país (exemplos: Constituição, colégio arbitral, isto é, as decisões dos tribunais), verbalizando mesmo que vai mudar a lei, acaba por criar a maior instabilidade e falta de confiança nos políticos, no governo, no futuro do país. A insegurança, o medo, o desânimo, afecta já não apenas os visados mas os restantes cidadãos.

Na actual situação a greve surge como o último recurso de quem foi colocado numa rampa de lançamento para a porta de saída de uma vida activa e na maior precariedade. E isto enquadra-se na destruição sistemática e maciça dos serviços públicos. É disso que se trata. Mas também adquire uma dimensão nacional, de país pressionado e ameaçado, a perder dia a dia a sua autonomia relativa, os seus recursos humanos, os seus recursos naturais e estratégicos, e a economia que é a sua vitalidade, dignidade e a base da democracia.

 

 

Concluindo: o que fazer perante um governo que não age apenas como um intermediário da troika no país, acata todas as avaliações, exacerba algumas medidas, apresenta-as a frio e a seco quase em cima do prazo, de forma avulsa e mal fundamentada, isto é, revelando prepotência e arbitrariedade?

Quando as regras do jogo são completamente adulteradas e desrespeitadas, incluindo a lei básica da organização política e social do país, a Constituição, e as leis que a fazem respeitar nos diversos patamares, o que podem fazer os cidadãos para defender a sua pele e a dos que se seguem nessa rota do desastre económico que nos irá colocar na mesma situação da Grécia?

A sociedade civil está a querer transmitir-lhes que há um limite, mas o governo ainda não percebeu nem quer perceber. Esta incapacidade para perceber os sinais de alarme é que vai prejudicar o país.

 

...

 

Importante acrescentar: e não é que me esqueci do mecanismo democrático básico que garante a representatividade e legitimidade do governo e da distribuição de deputados na Assembleia da República (eleições legislativas), no Parlamento Europeu (europeias) e no poder local (autárquicas), assim como o que garante o equilíbrio institucional e o respeito pela Constituição (presidenciais)? Isso mesmo:

 

- o voto: as eleições legislativas permitem a constituição de um governo e a distribuição dos deputados na Assembleia da República. Este governo e o Presidente estão tranquilos relativamente à representatividade e legitimidade do governo, baseando o seu conforto nos resultados de umas eleições legislativas de 2011, e na coesão social (esta razão foi dada recentemente pelo Presidente); as autárquicas permitem a gestão do poder local; as europeias, a nossa voz no Parlamento Europeu; finalmente, as Presidenciais, o tal equilíbrio de poderes institucionais e a garantia do respeito pela Constituição.

Este mecanismo do voto, sobretudo nas eleições legislativas e nas autárquicas, é aquele que deixa os políticos mais nervosos e percebe-se porquê. É o único em que os cidadãos decidem e intervêm, de facto, numa espécie de procuração dada aos partidos para gerirem os recursos colectivos por 4 anos, tanto a nível de governo e Assembleia da República, como do poder local. Por isso, este poderia ser um mecanismo com alguma eficácia se o seu intervalo não fosse tão longo. Eu explico: 2 anos deste governo já nos colocaram na rota da Grécia: recessão, emigração em massa mesmo de qualificados, desemprego, redução das condições de acesso e da qualidade de prestação de serviços públicos, pobreza, falta de confiança generalizada, ausência de perspectivas de futuro, etc. Portanto, em 2 anos este governo já provocou mais danos no país do que seria expectável mesmo pelo mais pessimista de nós. O limite já foi atingido, só eles não perceberam, Presidente incluído. Quanto às eleições autárquicas, e ainda a 3 meses da data de conveniência para o governo, 29 de Setembro, já se notam movimentações que sugerem uma campanha eleitoral antecipada. O governo, sem um debate público sério e alargado à sociedade civil, resolveu manter o nº de câmaras municipais e fechar diversas juntas de freguesia, optando aqui claramente por manter o seu poder local dos interesses instalados em detrimento da proximidade e do papel estruturante das juntas de freguesia. Pois bem, quanto a mim não participarei nessa estrutura e organização do poder local, que considero abusiva e desequilibrada. Não me deslocarei sequer à mesa de voto.   

Quanto às europeias: embora tenham um peso mais simbólico, ainda assim podem ser estratégicas, dependendo da voz que queremos ter no Parlamento Europeu. Embora à distância de quase 1 ano, já fiz a minha escolha há muito e ainda não me arrependi.

Finalmente, as Presidenciais: fundamentais para o equilíbrio de poderes, no controle de desvios à Democracia e no respeito pela Constituição, condição de estabilidade também, de avisos à gestão, representação mais elevada dos valores colectivos e das prioridades de um país. O que vemos actualmente é que a estabilidade não está garantida, a confiança não está garantida, a tal coesão social de que fala o Presidente perdeu-se, assim como a paciência dos cidadãos perante uma gestão prepotente e arbitrária, desigual e desequilibrada, com cortes sempre nos mesmos e excepções protegidas e operações pouco claras como a privatização de recursos estratégicos com irregularidades várias. Quem representa afinal o governo? Não são os cidadãos em geral, pois já lhes destruiu o trabalho, a qualidade de vida, a estabilidade das famílias, a protecção em condições de vulnerabilidade, o acesso e a qualidade de serviços públicos, a confiança nos políticos em geral, o ânimo e a saúde mental, uma perspectiva de futuro. E nesse mundo paralelo das excepções (banca, grandes grupos económicos e financeiros, as transacções e acordos de gabinetes, autarquias, governos regionais, institutos, fundações, profissionais liberais e a fiscalidade criativa, mas há muitas mais), tudo a decorrer normalmente. Para eles não há cortes, nem limites, nem ameaças de exclusão. Quem representa afinal o governo?

 

 

Conclusão sobre mecanismos democráticos eficazes: espero ter referido todos os mecanismos de defesa dos cidadãos perante a prepotência e arbitrariedade do governo. Para já, o voto, que poderia ser o mais eficaz, vê o seu impacto diluído por 2 factores: a) o intervalo de 4 anos hoje é suficiente para destruir um país, a sua economia, o seu ânimo; b) pelo que temos observado da sua actuação, vemos com alguma dificuldade a capacidade de regeneração cultural dos partidos que trouxeram o país até aqui e que são os mesmos que se apresentam a votos.

A seguir, há outro impacto possível: a imagem do país lá fora é um nervo sensível para este governo. Está aí uma janela de oportunidade, e a ideia dos cidadãos de Istambul das manifestações silenciosas, como estátuas, em locais simbólicos do colectivo, é verdadeiramente criativa. Isto filmado e exportado teria um impacto significativo e interessante na imagem externa do país. Com a ajuda de cartazes em inglês seria perfeito.

As Petições só se forem internacionalizadas, mais ou menos como a Petição da televisão grega. Foi muito concorrida.

E quando as reuniões de concertação social falharem, digamos quando as negociações se revelarem infrutíferas, então, como último recurso, a greve, isto é, quando não se vislumbrar outro mecanismo e/ou quando a situação envolver mais do que o grupo, mas o colectivo e o bem comum.

 

 

 

Actualização deste post - 2017.06.11:

Para os Visitantes que escolheram este post como o mais visitado de sempre d' As Coisas Essenciais: a má notícia é que o seu conteúdo está claramente desactualizado e a boa notícia é que o seu conteúdo está felizmente desactualizado.

A sua actualização, e lembro que já passaram 4 anos, encontra-se n' A Vida na Terra, nos posts sobre política e nas palavras-chave: democraciaequilíbrioeconomia; desigualdades sociais.

Será interessante acompanhar a inovação cultural na política em França.

Como exemplo de um sistema político obsoleto, inoperante e ineficaz, o caso da América.

Como os Visitantes vêm essencialmente do Brasil e de Portugal, ficam os links :)   

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:45

A responsabilidade de um "novo rumo" tem de se iniciar com um compromisso com os cidadãos e sem equívocos políticos e culturais

Terça-feira, 21.05.13

 

A possibilidade de se abrir uma janela e de se refrescar o ar deste país entregue a grupos com agendas já identificadas e percebidas e que não servem os interesses do país e dos seus cidadãos, seria um bom sinal.

Mas seja qual for a janela e o novo ar, é bom esclarecer desde o princípio que a equipa que for escolhida (e só pode ser pelos cidadãos) estabeleça um compromisso claro com os cidadãos.

 

Já o disse aqui, nunca acreditei na revolução dos cravos, mas absorvi desde criança, e de forma profunda, uma cultura democrática. Esta é a base. Não é direita-esquerda ou falsas dicotomias. É o respeito por si próprio e pelos outros, a empatia como a base da interacção. Também tem a ver com a cultura cristã profundamente enraízada na minha família, e não apenas na palavra, mas na sua acção diária. Mas tem muito mais a ver com a minha percepção desde o início que o convívio social saudável só se pode conceber numa base de igualdade na dignidade e na liberdade, na tolerância, no respeito mútuo, no valor intrínseco e não negociável de cada vida humana. A prioridade é a vida, mas a vida com dignidade. É isso que nos distingue da barbárie.

 

Por todos os livros que li na primavera marcelista e pelo clima de rebeldia que se sentia no ar e que pensava nos poderia levar, de forma gradual, a uma democracia moderna e civilizada (nos valores que referi acima), nunca acreditei na revolução dos cravos. A minha primavera era outra, só acredito em soluções inteligentes, cultas, graduais.

Em adolescente li Marx e Engels (resumidos, porque não aprecio calhamaços), e outros livros biográficos sobre visionários, loucos e psicopatas como Estaline, Mao Tsetung, Hitler e Himmler, portanto para mim eram todos do mesmo saco cultural e mental: os ditadores, venham de onde vierem, têm a mesma base amoral da lógica do poder e da morte, da destruição bárbara, são incultos e doentes mentais.

Agora imaginem a minha surpresa quando no liceu, pelos meus 16, 17 anos, deparei com o ambiente deprimente em que se defendiam personagens como Lenine, Estaline ou Mao Tsetung... Por ali planei nesse ano de 75 sentindo-me uma inadaptada, escapando à gritaria das RGAs e um dia até a uma invasão da Copcon a rodear o liceu de G3 na mão. Felizmente 76 trouxe o sossego dos Cívicos e voltei às origens por um ano. Quando regressei para a faculdade já os ânimos estavam mais calmos e só me esperava o desgosto de Camarate, em 80, o fim da esperança democrática.

 

A partir daí, a possibilidade de uma cultura verdadeiramente democrática, de uma democracia de qualidade (acesso universal a uma educação de qualidade; acesso a uma informação de qualidade e comunicação fiável e transparente; partilha de responsabilidade e participação cívica; justiça de qualidade; eficiência dos serviços; liberdade de concorrência; todos os equilíbrios que mantêm a democracia), foram sendo substituídos por uma cultura de clubismo partidário, de má utilização dos recursos públicos, de novo-riquismo cultural, do sucesso fácil, dos grupos favorecidos, de interesses ocultos, e de tudo o que já se diagnosticou até à exaustão e que permanece intocável.

 

Nunca votei PS. Votei AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Depois de Camarate, o PSD morreu para mim. O CDS foi o recurso para não votar em branco. Só voltei a estar perto de votar PSD com a política de verdade de Manuela Ferreira Leite, e depois talvez votasse no libertar o futuro de Paulo Rangel mas ganhou o Passos, e apostei n' este é o momento do CDS/PP.

 

Mal sabia eu, como já aqui disse, que este é o momento seria pior do que um banho de água fria, foi cair num buraco de água gelada num glaciar: como podia ter sido tão ingénua? Só porque falavam na agricultura e na supervisão bancária?

Mas não se atiraram agressivamente aos mais fracos da população, aos RSI? Com um discurso moralista à Estado Novo? De uma mesquinhez tacanha esquecendo que os feirantes e os pequenos negociantes de rua praticam uma economia paralela de subsistência perseguida pela ASAE dos moderanaços socialistas da altura, que os arrastaram para a subsidiodependência? A economia paralela de subsistência não é muito mais digna do que viver de subsídios estatais?

A verdadeira fuga ao fisco, a dos grandes grupos profissionais e empresariais está aí? Não está! Mas dessa não nos falaram.

Os sinais de um elitismo cultural, de desejo de pertença a uma classe de privilegiados, de um moralismo saudosista e tacanho, já estavam todos lá e eu não os consegui identificar.

 

Foi apenas quando assisti a esta cooperação de dois anos em que mantiveram um silêncio cúmplice e oportuno com um núcleo de gestão política (PM-ministro das finanças) que iniciou uma guerra de destruição maciça à economia, ao trabalho e à dignidade de vida dos cidadãos, que finalmente percebi e identifiquei a sua verdadeira cultura de base. Só alguém com uma cultura de base muito pouco democrática, para não dizer mesmo anti-democrática, poderia ter pactuado com este plano de desvalorização do trabalho e perseguição aos mais vulneráveis, mantendo intocáveis os grandes interesses e as excepções aos cortes. Fiquei sem partido em que votar, portanto. 

 

Qualquer cumplicidade estratégica com o núcleo PM-ministro das finanças será recordada na história do país.

Considerar-se agora que o CDS, depois de dois anos de cumplicidade com esta tragédia económica e social, pode agora surgir como um possível partido de coligação com o PS, por exemplo, é um atentado à nossa consciência cívica.

Vão primeiro aprender o que é a democracia de qualidade, e já agora como TPC:

a) tentar viver com o RSI ou o SMN;

b) sobreviver 6 meses na China rural, na Índia urbana, no Bangladesh fabril, para ver que modelo de economia competitiva nos estavam a preparar;

c) passar uns dias sem pequeno-almoço e ir para a escola ou ir à farmácia e ter de escolher entre que medicamentos levar para casa.

 

Quanto ao actual "novo rumo" do PS, terá de fazer um compromisso com os cidadãos e não configurar apenas uma forma airosa do sistema (o regime, as actuais elites no poder) se reorganizar novamente para tudo ficar na mesma paz podre

Como já aqui disse, terão de convencer os potenciais eleitores que podem confiar neles, que não serão traídos de novo.

Ainda estão por esclarecer as responsabilidades da gestão do anterior governo PS na situação financeira-limite a que se chegou há 2 anos.

Ainda está por perceber o papel dos mercados financeiros, do BCE (Constâncio foi promovido após não ter supervisionado nada), da banca (BPN), dos grandes grupos económicos, da CE, do PR, do PSD (Passos já andava a preparar a sua carreira no poder durante a liderança de Manuela Ferreira Leite), etc.

E finalmente ainda está por provar até que ponto a cultura de base deste "novo rumo" é um caminho de reabilitação para a tal democracia de qualidade.

Também vão precisar de apoios supra-nacionais, europeus e outros. Mas deverão manter os cidadãos devidamente informados do que está em causa, de forma frontal e com coragem, sem evasivas nem teatros. 

 

Quanto a possíveis coligações:

É melhor um governo com uma agenda limpa, clara e transparente, que vai gerindo o país com acordos parlamentares e negociações com representantes dos trabalhadores, empresários, industriais, etc. e com associações e movimentos da sociedade civil, do que se deixar enredar em jogos políticos que só debilitam a confiança dos cidadãos nos políticosRespeitar a inteligência de quem se representa é fundamental.

 

 

 

Para finalizar este post com uma amostra da inteligência distante, indiferente e metálica do núcleo que nos governou estes dois anos, de forma a melhor se perceber como se pode destruir com powerpoints e excell, trago aqui uma cena de um filme que já tinha colocado na Farmácia Central. Através desta cena vão perceber melhor como funciona a cabeça do protótipo tecnocrata, seja o ministro das finanças seja um elemento da troika, do FMI, da CE. A distância emocional e monocórdica são próprias de uma inteligência artificial só comparável a um robô:

 

 

 

Nota de esclarecimento em 2 de Junho de 2014: Este ano vi tanta coisa que era inevitável uma mudança na minha perspectiva do grande plano. O mesmo é dizer que não fica incólume a tanto atropelo à justiça, à equidade, ao equilíbrio de poderes, a uma cultura democrática, ao simples e saudável bom senso. O impacto de tudo a que assisti com este governo-troika foi tal que posso mesmo dizer que fiquei vacinada de forma vitalícia contra o centro direita. Ou se tem uma cultura democrática ou não se tem, ou se têm valores cristãos ou não se têm. O centro direita ou direita ao centro é um tremendo equívoco cultural e político.

Foi também a observar as personagens actualmente no poder que fiquei esclarecida relativamente à minha visão idílica da primavera marcelista: sim, havia católicos progressistas e intelectuais com uma visão mais aberta do mundo, mas o sistema estava blindado como este está actualmente e não se iria abrir a uma democracia como cheguei a idealizar.

Dá-me a sensação que terei ainda de introduzir muitas notas de esclarecimento em diversos posts sobre assuntos-chave. Não quero contribuir para mais equívocos culturais, mesmo que se trate apenas de uma análise individual. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:25

Resultados da aplicação da austeridade na economia, no trabalho, na emigração, nos serviços sociais, na democracia: o caso da Hungria

Domingo, 12.05.13

 

De vez em quando assisto ao programa Sociedade das Nações da Sic Notícias, e desta vez acompanhei com interesse a entrevista a Viktor Orbán, 1º ministro da Hungria. Primeiro fica a imagem de alguém que gosta de liderar e controlar, alguém que discursa com entusiasmo, desvalorizando a oposição interna, sobre a forma como se adaptaram às exigências do FMI, uma nova Constituição (aqui senti um arrepio), um imposto único de 16 % igual para todos (?) para não penalizar o trabalho, preferindo subir o IVA (!), taxaram a banca (ver para crer), as multinacionais (ver para crer), reduziram os deputados para metade, os políticos no activo para metade, etc.

Ao ouvi-lo ficou-me a ideia de uma sacudidela demasiado drástica para animar a economia. Alguma coisa me soou a marketing político e não a liderança democrática, embora o entrevistado se tenha mantido num discurso racional, sensato, moderado. No entanto, há frases que nos ficam a ressoar de forma incómoda: a Europa tem tido lideranças institucionais que não têm capacidade de resposta, agora precisa de lideranças pessoais, de líderes; as fronteiras não devem ser o mais importante, já perdemos parte do território depois da 1ª Grande Guerra e mais território depois da 2ª guerra mundial; os nossos valores baseiam-se no cristianismo (é muito vago).

 

Não inteiramente convencida com tanta competência auto-proclamada, fui procurar outras fontes de informação. Passei pela BBC Hard Talk mas só encontrei uma entrevista a um especialista de marketing político do governo, o ministro da Comunicação(!) que se defendeu muito bem. Em todo o caso, reparem como o ministro acaba por utilizar palavras como oportunidade, reformas estruturais, medidas, com as quais já estamos demasiado familiarizados.

Resolvi procurar melhor no youtube informação concreta sobre a vida diária das pessoas:

 

 

Como se pode verificar, a estabilidade que uma maioria promete, pode levar a excessos na aplicação de programas como este da austeridade. Parece ter sido o que aconteceu aqui, a começar por construir uma nova Constituição (apenas em 9 meses e sem a participação de todos). Sempre que os governos nos falarem na Constituição, já sabemos o que se segue. Por cá esse discurso da necessidade de modernizar a Constituição e adaptá-la a uma nova conjuntura tem sido contrariada. Reparem nos riscos destes atropelos à Constituição de um estado. É por onde tudo começa no caminho da anulação da democracia e da utilização dos mecanismos democráticos.

Reparem como o estado social, os serviços prestados aos cidadãos, foram quase liquidados. São as pessoas que sofrem. A economia não está a crescer, mesmo com o imposto único, aumentando a divergência entre pobres e ricos (ou melhor dito, remediados, que preferem poupar a consumir).

E reparem como a banca não perde, antes ganha com estes planos de austeridade, pelo menos por enquanto.

Quanto aos media, por cá ainda não temos esse problema, cá as pessoas são inundadas com ficção informativa e opiniões de comentadores e futebol e telenovelas em doses apropriadas em todos os canais de televisão.

 

Porque me interessei tanto por analisar a situação da Hungria?

Primeiro, pela semelhança da sua gestão política mais recente com a nossa: governos socialistas levaram 2/3 dos cidadãos do país a votar numa proposta de centro-direita que os ajudasse a sair da falência. O programa seguido por este novo governo que, tal como o nosso, quis ir para além do FMI, acabou por se revelar desastroso para o seu povo.

Segundo, porque admiro muito o povo húngaro, a sua coragem e amor pela liberdade. Já aqui lembrei a resistência à invasão soviética no documentário Fúria da Liberdade. Um povo assim, que tem a liberdade no seu ADN, é um povo que não se deixará intimidar ou controlar, apesar das condições difíceis que lhe estejam a impor.

 

 

Já iniciei esta viagem virtual pelos países europeus em apuros, com a Grécia, na Farmácia Central e nas Vozes Dissonantes. A seguir, talvez vá até ao Chipre, à Eslovénia, à Irlanda e depois aqui ao lado, à Espanha.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:10

Balanço do ano que passou e anúncio do ano que se inicia

Sexta-feira, 28.12.12

 

O fim de mais um ano é sempre uma época para fazer balanços: o que fizemos e o que ficou por fazer, o que poderíamos ter feito melhor, o que aprendemos com as experiências que vivemos e com as interacções humanas. 

É também a oportunidade para rever o filme do ano: as partes boas e as partes más, e ter a coragem de não saltar as más, de não as apagar da memória. Muito do que aprendemos surge com experiências que podemos considerar, numa primeira análise, como uma experiência para esquecer. Aconselho vivamente, pelo contrário,  a mantê-la na memória até aprender com a experiência.

 

Este ano trouxe-me de tudo um pouco: desafio aos neurónios, a sua melhor parte aliás, mas também carinho partilhado, amizades, risos, sonhos.

E aprendi imensa coisa: que as aparências iludem completamente, que as lideranças em cargos de topo em instituições, países, organizações europeias e internacionais, não estão à altura da sua enorme responsabilidade.

Também aprendi que ninguém nos diz a verdade sobre o que nos espera no ano que vem nem nos anos mais próximos, e que nos estão a arrastar para um cenário de baixos salários, exclusão da vida activa, emigração, ausência de qualidade de vida e baixas expectativas para uma maioria da população.

Aprendi ainda que os gestores políticos não têm de prestar contas pela alteração do seu programa, pela alteração das regras do jogo, pela ficção e pela propaganda com que iludem os cidadãos. Também os gestores financeiros nada têm a propor para melhorar o cenário, porque de nada podem ser responsabilizados. Só têm de esperar que, custe o que custar, os cidadãos aguentem a crise.

Digamos que foi um ano muito instrutivo.

 

Ainda dizem que o mundo não acabou... O mundo, tal como o conhecemos, a maioria de nós, acabou mesmo.

O mundo agora é dos que vivem noutra dimensão, onde não há consciência nem responsabilidade, onde não há qualquer contacto incómodo com a realidade, a pobreza, a fome, que chatice, isso é para pensar duas ou três vezes por ano, a generosidade dos portugueses...

O mundo agora é dos que decidem pelos demais, pela população de um país, de países, de um continente, qual o seu salário, qual o seu nível de vida, quais as expectativas a que têm direito, e por aí adiante.

O mundo que agora se impõe é o da cultura corporativa baseada no poder financeiro que domina o poder político, e a que têm de se subordinar a economia e a vida concreta dos cidadãos. E ainda nos falam de democracia cá e na Europa. Esse mundo ficou no papel, porque já nada se assemelha a uma democracia nem à tal comunidade coesa e solidária que se quis construir.

 

Para desejar a todos o início de um novo ano com a vitalidade e a coragem necessárias para enfrentar estes desafios, aqui vai uma perspectiva criativa da empatia, a base das interacções humanas equilibradas e saudáveis:

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:13

As Petições como última arma da cidadania?

Sexta-feira, 30.04.10

 

Um dos políticos que mais recorreu às Petições deve ter sido Wilberforce na causa da abolição da escravatura. Gostei muito deste filme magnífico, Amazing Grace. Wilberforce é, aliás, uma personagem fascinante, inspiradora. Não apenas pelas causas que defendeu, mas também pela sua natureza, o seu amor pela botânica, a sua motivação pelo colectivo, a sua aversão a revoluções, a guerras e à violência em geral. Hesitou antes de se dedicar à política, teria preferido a meditação da vida eclesiástica. Alguém lhe disse que podia conciliar Deus e a política, a possibilidade de agir sobre a realidade. A saúde ressentiu-se, pois qual é o homem que não sente a dor universal? No seu caso, foi o estômago: era difícil digerir uma realidade tão amarga como o sofrimento e a morte de tantos escravos, para manter um negócio muitíssimo rentável para o país.

 

Hoje, no início do séc. XXI, parece que as Petições se estão a tornar na última arma da cidadania. A velha Europa já parece avessa a referendos, tem medo deles não vá o Diabo tecê-las.

E neste cantinho que já foi mais ajardinado?

Se queremos defender a liberdade de expressão, Petição. Se queremos proteger o património cultural e histórico, Petição. Se queremos evitar a descaracterização do território colectivo, Petição. Se queremos travar a apropriação do espaço público, Petição.

Já não chega votar num partido e partir do princípio que a democracia funcione, que o equilíbrio social funcione, que a coesão social seja protegida, que a nossa soberania seja defendida, que o nosso futuro não seja comprometido, que não nos preparem uma nova escravatura, etc. e tal. Nada disto é prioridade dos políticos actualmente no poder, nem mesmo do Presidente.

Restam-nos as Petições.

 

É certo que, já no tempo de Wilberforce, as Petições não se revelaram suficientes. Para conseguir a abolição da escravatura andaram mais de uma década a recolher informação e assinaturas. Finalmente, tiveram de recorrer ao seu engenho e arte. Tiveram de ser criativos e aproveitar uma falha no sistema, descoberta por um advogado (who else?) para conseguir passar a lei. Julgo que também nós teremos de ser cada vez mais engenhosos e criativos para nos defendermos do Estado e da sua máquina infernal. E é se queremos realmente manter a liberdade de escolher um futuro possível. É que eles já nos estão a preparar um futuro, mas não é futuro digno de seres livres, é um futuro de escravos (da dívida, em primeiro lugar, dos lóbis actuais, em segundo, da "nova elite", em terceiro). É isso que realmente queremos?

 

Já não há políticos como Wilberforce. E se os há, não são os escolhidos pelo sistema. O sistema defende-se. Logo que surge um Wilberforce, tentam anulá-lo, neutralizá-lo.

Teremos de ser mais inteligentes e criativos. Refiro-me à chamada sociedade civil. E não nos podemos ficar pelas Petições. Teremos de recorrer ao nosso engenho e arte.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:04








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